Quinta, 13 September 2018 12:00

Crônica de Paulo César Cedran: Vir Publicus – O que aprendi com Jayme Gimenez Destaque

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Capa paulocedranjaymeRecebi a convocação do gabinete do Prefeito Jayme Gimenez, para comparecer à sua sala, ocasião em que o seu recém nomeado secretariado iria ser apresentado à população matonense, por meio de uma foto oficial.

 

O ano era 2001 e a data 04 de janeiro. Assim, com certo receio, mas muito honrado por ter sido escolhido para o cargo de Secretário Municipal de Educação e Cultura, nos juntamos ao Vice-Prefeito Rui Pinotti e demais secretários para a foto oficial. Foi a esta foto, que recorri , quando recebi pela manhã de hoje, notícia de que nosso prefeito Jayme Gimenez havia falecido. Chegava ao fim, uma caminhada de sofrimento que durou mais de quatro anos.

Mesmo sabendo que o ciclo da vida se completa com a morte, humanamente falando, não aceitamos ou estamos preparados para chegarmos ao fim. O ser humano precisa passar por muita provação e sofrimento e é esta realidade que nos inquieta. Mas como apresentei a lembrança da fotografia para recordar esse momento, faço deste espaço a possibilidade de refletir o quanto minha vida mudou a partir do momento em que assumi o cargo de secretário.

O homem privado desapareceu para dar lugar ao vir publicus, no sentido pleno que a palavra homem público encarna. Esse pequeno ritual da fotografia, marcou o início de todo um processo de aprendizado quanto à liturgia da vida pública, que o professor, diretor de escola, prefeito municipal e deputado estadual começou a me ensinar.

Assim, pouco a pouco aprendi que semanalmente visitaríamos escolas para atos cívicos, bem como para realizarmos rigorosamente os compromissos que envolvessem as questões de educação e cultura. Assim renasceram as cerimônias de formaturas, os desfiles cívicos e outros eventos que marcaram a gestão de nosso prefeito. Percebi que pouco a pouco crescia nossa responsabilidade, no sentido mais pleno que a palavra público podia representar.

Quando não podia comparecer aos compromissos, o prefeito Jayme rigorosamente enviava seu convite com o despacho: “por favor, representar o prefeito”. Imagino, acompanhando apenas pelo aspecto de nossa secretaria, o quanto o prefeito se doou a população ao longo de toda a sua vida pública de mais de quarenta anos, marcada por uma trajetória exemplar, a qual em artigo anterior, denominei de trajetória de estadista. Procuro compreender o quanto sua família também foi sacrificada para que o homem público prevalecesse sobre o homem privado.

Neste ciclo compreendido entre o nascer e o morrer, muita renúncia, resignação, acertos e erros foram cometidos em função de um objetivo maior que foi o de servir a res publica, tão desprezada pela classe política atual que na sua maioria envergonham aqueles que exercem com dignidade e honestidade este ofício. Aprendi com o Jayme, que poucos amigos permanecem quando os holofotes do poder e da celebridade vão se alternando.

E é justamente por isso, que pude compreende-lo melhor ainda, quando já não era mais com o prefeito, mas com o homem que passei a conviver. Reconheci o quanto a crueldade da vida que nos machuca, também nos torna resilientes para enfrentar a difícil arte de viver. Thomas Hobbes em sua obra O leviatã já alertava no século XVI quanto ao perigo que o poder exerce sobre os homens podendo se tornar um monstro incontrolável diante de toda a sociedade.

Mas é também no século XVI que o filósofo e ensaísta francês Michel de Montaigne nos alerta que mesmo não havendo nenhum fundamento moral ou racional entre as instituições políticas e o político que exerce a sua função, que estaríamos autorizados ao desvio de conduta, como justificativa hierárquica de manutenção da ordem política. Para superar este desvio Montaigne aposta que devemos encarnar as relações humanas pela amizade. Mesmo reconhecendo que a distância introduzida pelo cerimonial que se opõe à fusão das almas que se amam, não é sem razão que poderemos justificar sua a exclusão ou destruição em função dos interesses diversos que movem as relações políticas.

Podemos ver em Montaigne, a figura maior que denunciou a cisão que se opera entre a vida pública e a privada e que pode sim, destruir a essência da relação humana. Assim como Montaigne descreve o engajamento político como um peso que ele aceitou carregar, este também o vivenciou como uma renúncia de si mesmo como homem público, como afirma no capítulo 10 do livro III de seus Ensaios. Assim ele dramatizou a sua retirada cansado da vida pública, exilando-se em seu castelo, para cuidar enfim de sua alma.

Esse Jayme, comparado a Montaigne, foi o homem que descobri depois de 2004, quando conversávamos sobre política, nos encontrávamos em eventos e especialmente quando podia comparecer livremente à sua residência para desejar feliz aniversário no dia 07 de outubro. Já não estávamos mais presos pelas amarras formais de um cargo público, mas pelos laços de amizade, carinho e respeito de um filho para com seu pai.

Nessa comunhão de vontades fraternas, aprendi a compreender a poética da dor que a sua esposa, a professora Íride Gimenez expressava diante de todo o sofrimento pelo qual o Jayme passou como também a entender que muitas vezes o silêncio e à ação de pessoas anônimas falam muito mais que muitas palavras. Ao meu amigo e se assim posso dizer, também pai, Jayme Giminez, derramo uma lágrima de tristeza por aqueles que não querem compreender que como diz Montaigne: devemos aprender a morrer para saber viver.

 

paulocedrn

 

* Paulo César Cedran é Mestre em Sociologia, Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara, Supervisor de Ensino da Diretoria de Ensino – Região de Taquaritinga, Docente do Centro Universitário Moura Lacerda de Jaboticabal e  Uniesp - Taquaritinga. E-mail Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

 

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